A questão da democracia e dos direitos humanos se situa no contexto de uma ontologia do ser pessoal.
Enquanto dimensão primeira, o corpo constitui o pressuposto da consciência, da autoconsciência e da intersubjetividade, enquanto características específicas do ser humano. Mas o corpo não é apenas um objeto, mas um meio para as relações entre as pessoas, do ser humano consigo mesmo e o mundo natural. O ser não é apenas determinado biologicamente, ele é capaz de transcender para além do imediato e de se distanciar de tudo. É aí onde está a especificidade humana: capacidade de ir além de si mesmo e dizer não para a facticidade, para qualquer limite e exterioridade e de distanciar-se de tudo e perguntar pela totalidade do ser. Por tanto, a capacidade de todo ser está na capacidade do sujeito alargar seu horizonte e ir além dos limites de si mesmo como uma instância universal.
Cada impressão sensível que temos pode nos fazer ter várias interpretações da mesma experiência. Então, diante dessas várias interpretações surge a pergunta de como elas podem ser legitimadas e é aqui onde o ser humano apresenta sua grande façanha: através de suas reflexões e de suas críticas ele levanta a questão da validade. Como o ser humano é capaz de se distanciar de suas próprias representações e desejos, à medida que pergunta se elas são verdadeiras e se eles são, moralmente, corretos, significa que o ser humano pode perguntar pelos critérios que devem orientar sua vida. Com isso, na vida prática, a reflexão sobre os valores estabelecidos pela sociedade surge e é a razão humana quem deve responder o que devem fazer. A razão é o fundamento de validade das nossas normas de ação e que, por isso, é universal. Além disso, não devemos ser escravos de nossos desejos porque ser livre é ter autonomia. Dessa forma, só o homem moral é livre porque não basta realizar o que se quer, e sim, querer o que é correto. As limitações da moral são condições para a liberdade, pois liberdade não é só negar, o verdadeiro e o bom são possibilidades de liberdade. Assim, espiritualidade humana é a capacidade que o ser humano tem de distanciar-se de tudo, que por isso, é uma distância universal. Mas o ser espiritual tem que ser, também, responsável na sua própria existência.
A liberdade humana só é liberdade efetiva enquanto liberdade no mundo da natureza e da sociabilidade. Liberdade individual e liberdade relacional são inseparáveis porque, primeiro, a liberdade de transcendência e de autonomia é liberdade do vazio, se num segundo momento ela é decisão, ela só se realiza se for exteriorizada no mundo natural e social. É a síntese ente subjetivo e intersubjetivo, interior e exterior o modo como a liberdade é processo de construção do ser humano. Assim, a liberdade é a síntese dos opostos que se efetiva na esfera da cultura, isto é, mundo sociopolítico. As pessoas reconhecem uma ás outras mutuamente, como seres, e não como coisas, livres e iguais (cada um é para sim o que é para o outro). Ser homem significa, portanto, ser livre e ser livre é não ser um ser isolado, e sim, construir um mundo onde a liberdade possa se efetivar, onde todos são vistos como um fim em sim mesmo (identidade) e e que nas suas diferenças não destroem a igualdade básica.
Nenhum comentário:
Postar um comentário